Criada há quase 50 anos, a organização francesa Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem levado ajuda médica-humanitária para a população de mais de 70 países que já foi impactada, de alguma forma, por desastres naturais, conflitos armados, epidemias, doenças negligenciadas ou que não possuem acesso à saúde. Nesta entrevista, Diogo Galvão, coordenador de Projetos Especiais da organização, conta sobre os objetivos do grupo que, além dos cuidados médicos, tem como meta sensibilizar o público sobre o sofrimento das pessoas, dando visibilidade a realidades que não podem permanecer negligenciadas.

Galvão também fala um pouco de uma campanha, lançada semana passada, que tem como objetivo chamar a atenção para a situação dos refugiados e imigrantes que se deslocam ao redor do mundo.  A ação, criada pela agência Artplan, faz um paralelo, por meio de fotos atuais de pessoas e contextos onde MSF atua, com o clássico “A Divina Comédia”, do italiano Dante Alighieri. Ao criar a primeira parte de sua obra, “Inferno”, o poeta do século 14 imaginou o que seria a pior viagem que alguém poderia enfrentar.

 – Qual o objetivo dessa campanha sobre os refugiados?

Atualmente, vemos com muita preocupação o sofrimento de pessoas que se veem forçadas a se deslocarem de suas casas para buscar condições de sobrevivência em outras regiões. Essas pessoas vivem em um limbo legal onde estão sujeitas a violências extremas. Das Américas ao continente asiático, levamos cuidados de saúde a quem está em situação migratória e temos feitos inúmeros apelos para a adoção de políticas que salvem vidas e não as deixem morrer ignoradas em seus sofrimentos. Essa campanha trata exatamente sobre essa questão.  A ideia é usar a força de um clássico da literatura universal e de uma imagem icônica para gerar uma reflexão e chamar a atenção para essa dura realidade.

,– Sobre a organização,  o que motivou sua criação e quais são suas principais metas?

A organização foi criada em 1971, na França, por jovens médicos e jornalistas, que socorriam as populações mais vulneráveis na guerra em Biafra, na Nigéria, no fim da década de 60. Eles viram na época que o mundo europeu pouco sabia sobre as crises humanitárias e decidiram fundar uma organização que, além de levar cuidados de saúde nesses contextos, também tivesse a missão de comunicar ao mundo as situações que encontravam. Atuamos há quase meio século com os mesmos princípios de neutralidade, imparcialidade e independência.

Como o trabalho é realizado?

A MSF trabalha em cerca de 70 países com quase 450 projetos. Quando nos deparamos com uma situação de crise humanitária, o primeiro passo para iniciar um projeto é enviar uma equipe pequena, em geral de duas ou três pessoas, para fazer um levantamento das condições de saúde da população em questão e da ajuda oferecida por outras instituições, organizações ou governos. Com base nesses dados, avaliamos se nosso trabalho é realmente necessário. Em caso positivo, as informações coletadas são utilizadas para traçar um plano de atuação, que inclui as atividades que serão realizadas, a equipe, os suprimentos médicos necessários, entre outros pontos. Em casos de emergências repentinas, como, por exemplo, um terremoto, em que as necessidades são urgentes e extremas, a própria equipe de avaliação já pode começar a oferecer cuidados iniciais à população mais afetada.

 – Como são escolhidas as missões?

Os projetos de MSF são organizados de acordo com a necessidade médica de uma população e se não poderia ser suprida pelas autoridades de saúde locais. A decisão nunca leva em conta opiniões políticas, ideológicas ou religiosas.

– Quem pode participar da organização?

As pessoas que atuam em MSF têm perfis profissionais bem distintos. Além dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, psicólogos, ginecologistas, farmacêuticos, entre outros -, temos administradores, economistas e logísticos, por exemplo. Os requisitos básicos para trabalhar em Médicos Sem Fronteiras são: formação superior; dois anos de experiência profissional; domínio de um segundo idioma (inglês e/ou francês) e disponibilidade para trabalhar em outros países por longos períodos.

– Qual é o perfil dos integrantes das equipes?

Os profissionais de Médicos Sem Fronteiras são voluntários, mas são recrutados e remunerados. Todos recebem salários e participam de processos seletivos rigorosos, no entanto, a remuneração não é a motivação principal dos profissionais, mas sim a satisfação de trabalhar por uma causa que salva vidas. Nossos profissionais devem ser, acima de tudo, pessoas que acreditam no trabalho humanitário imparcial, neutro e independente realizado pela organização mundo afora e sentem-se motivadas por ele. A integridade da nossa organização é sustentada pela boa conduta de cada membro da equipe individualmente, em qualquer local, com total respeito pelas comunidades que servimos. Por isso, esperamos que todos os profissionais respeitem os nossos princípios. Nosso papel é prestar assistência às populações em dificuldades, sem nunca esquecer nosso código de ética profissional.

 – Como as equipes são formadas?

As equipes são formadas de acordo com cada demanda que precisa ser atendida. Além dos profissionais enviados de diversas partes do mundo, trabalhamos também com equipes de profissionais locais a fim de promover a troca de experiências, e uma atuação mais eficiente para os pacientes. Aliás, a maior parte dos 45 mil profissionais de MSF é de pessoas que trabalham nos seus próprios países.

– Qual a importância desse trabalho e de outras iniciativas sociais para quem precisa?

A nossa atuação é de salvar vidas. Muitas vezes, a MSF é a única organização que leva os cuidados mais simples de saúde a contingentes muito numerosos. Muitas das doenças que vemos e tratamos, por exemplo, os países mais ricos só sabem que existem pelos livros de medicina. Além do tratamento médico, também fornecemos água, alimentos, saneamento e abrigos. Esse tipo de ação se dá prioritariamente em períodos de crises acentuadas e de maneira muito pontual, quando o equilíbrio anterior de uma situação é rompido e a vida das pessoas é ameaçada.

–  De que forma as pessoas podem ajudar?

MSF aceita somente doações financeiras. Elas podem ser realizadas de diferentes formas, como com Iniciativas solidárias ou doação mensal. Para mais informações é só consultar nosso site. Como um dos pilares de nossa atuação é a comunicação, também buscamos engajar as pessoas para falarem e discutirem sobre as crises humanitárias, para que também a comunidade internacional possa atuar da melhor forma pela melhoria das condições de vida das pessoas que atendemos em nossos projetos. Incentivamos todos a compartilharem nossos conteúdos e ampliarem a visibilidade delas.

– Como esse trabalho pode inspirar outras pessoas?

MSF nasce com o propósito de levar cuidados médicos, mas também de sensibilizar o público sobre o sofrimento das pessoas às quais leva cuidados de saúde, dando visibilidade a realidades que não podem permanecer negligenciadas. Dessa forma, MSF consegue dar voz a pessoas e crises invisíveis e arrecadando mais ajuda para quem precisa.

– É possível destacar quais são as situações mais difíceis que já foram enfrentadas?

Como nossa atuação acontece em contextos de crises humanitárias, de certa forma, nós sempre temos algum tipo de dificuldade. É difícil enumerar quais situações foram mais difíceis. No entanto, o Genocídio de Ruanda, que aconteceu há 25 anos, foi certamente um momento importante para MSF. Nós já estávamos presentes em Ruanda quando cerca de 800 mil ruandeses da etnia tutsi foram assassinados por milicianos hutus. A organização tomou, na época, a decisão inédita de pedir intervenção armada internacional no país com uma justificativa simples: “médicos não podem parar um genocídio”. Foi um momento único na história da organização, que se viu obrigada a pedir ações mais assertivas para evitar o extermínio de uma etnia inteira.

– Quais são os próximos objetivos?

Nós pretendemos seguir mantendo os projetos que temos e objetivamos conseguir ajudar mais pessoas em situações de necessidade de cuidados médicos. Esse trabalho vai desde os nossos projetos em campo até as campanhas de acesso a medicamentos e apelos para que a comunidade internacional promova políticas que salvem vidas, tanto em guerras, como vemos no Iêmen, como com pessoas que se veem em situação migratória.

– O que ainda falta ser feito?

De uma forma geral, falta valorização e proteção do trabalho humanitário. Não falo apenas de MSF, mas de todas as organizações humanitárias que atuam hoje em contextos complexos e que muitas vezes precisam abandonar suas atividades por conta de ataques às suas instalações ou profissionais. Falta também a valorização da humanidade, da vida humana. A crise migratória que hoje presenciamos é exemplo disso, em que autoridades criam leis, muros e outras inúmeras barreiras visíveis e invisíveis que apenas tornam a luta pela sobrevivência daquelas pessoas forçadas a se deslocarem ainda mais difícil. Na verdade, o que vemos em campo é que não importa se há um oceano na frente dessas pessoas: elas não possuem outra opção que não seja a de cruzá-lo.

Foto/Divulgação: Diogo Galvão