Com o objetivo de continuar transformando a realidade social de muitas pessoas, a Fundação Gol de Letra, criada pelos ex-jogadores de futebol Raí e Leonardo, completa 20 anos de atuação. A instituição, que já atendeu cerca de 15 mil crianças e jovens, trabalha conceitos como educação integral em projetos que incluem atividades esportivas, de lazer, expressão oral, escrita, cultural, artística e corporal, além de educação para o trabalho e desenvolvimento local. Com atuação na Vila Albertina, em São Paulo, e no Caju, no Rio de Janeiro, a fundação alia práticas educacionais e de assistência social ao desenvolvimento comunitário e de suas famílias. Nesta entrevista, Beatriz Pantaleão, diretora-executiva da entidade, falou dos desafios da fundação, da importância de inspirar e transformar pessoas e do trabalho que é realizado, além dos próximos passos a serem seguidos.

 – Como surgiu a ideia de criar a Instituição?

A Fundação Gol de Letra foi criada em 1998, a partir de uma ideia do Raí e do Leonardo de criar um espaço que garantisse condições para o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens de comunidades socialmente vulneráveis e contribuísse para diminuir a desigualdade social no Brasil.

– Como é o trabalho da instituição?

Apesar de sermos uma ONG, funcionamos exatamente como uma empresa, mas sem lucro. Hoje possuímos 129 funcionários entre Rio de Janeiro e São Paulo, temos auditoria anual, prestamos conta para os Conselhos do Rio de Janeiro e São Paulo, para o Ministério Público, para parceiros, possuímos planejamento estratégico, objetivo e metas a cumprir.

– Quais foram as principais conquistas da fundação nestes 20 anos?

Tivemos importantes conquistas nacionais e internacionais, entre elas, o reconhecimento da UNESCO como modelo mundial no apoio às crianças em situação de vulnerabilidade social. Além disso, aplicamos a metodologia Gol de Letra, que trabalha com os conceitos de educação integral e esporte educacional e de participação, baseados em três pilares: aprender (ampliação do repertório cultural, esportivo e educacional), conviver (desenvolvimento de valores e regras de convivência) e multiplicar (formação de multiplicadores de conhecimentos e atitudes).

– Atualmente, qual é a participação do Leonardo e do Raí?

O Raí, além de ser um dos instituidores da Fundação, junto com o Leonardo, atua como presidente do Conselho da Fundação Gol de Letra. Os dois contribuem com a captação de recursos, abrindo portas com novos parceiros e estabelecendo relações institucionais.

– Qual o perfil do público atendido pela Fundação?

Buscamos sempre atender o público que fica próximo de nossas unidades. Primeiro pela questão da locomoção que será necessária para frequentar a Gol de Letra, segundo porque estamos em regiões de extrema vulnerabilidade e descaso governamental, que escolhemos propositalmente, portanto damos preferência para a população mais próxima.

– O que os interessados devem fazer para participar?

Para fazer parte dos projetos, é necessário ir até a sede da Fundação no bairro do Caju, no Rio de Janeiro (Rua Carlos Seidl, 1.141), ou na Vila Albertina, em São Paulo (Av. Nova Cantareira, 5.078), e realizar um cadastro. O público atendido é selecionado de acordo com o número de vagas disponíveis e conforme o grau de vulnerabilidade social e risco, seguindo critérios da Política Nacional de Assistência Social (PNAS 2004).

– Qual a importância desse trabalho e de outras iniciativas sociais para quem precisa?

O trabalho das ONGs não substitui o papel do Estado, mas é fundamental porque oferece possibilidades e oportunidades por meio de conhecimentos, práticas, vivências e diálogo. Com os projetos da Fundação Gol de Letra, atendemos as necessidades formativas, educativas e sociais de crianças, jovens e adolescentes, ampliando seu repertório educacional e cultural e sua autonomia.

– Como a instituição é mantida? De que forma as pessoas podem ajudar?

Atualmente, nossa captação de recursos é bem diversificada: participamos de Leis de Incentivo Federal, Estadual e Municipal, de editais de empresas privadas e contamos com doações de pessoas físicas que compartilham dos nossos valores e participam do nosso Programa de Sócios Titulares. Para ajudar os projetos da Fundação, basta acessar o site e se cadastrar e selecionar o valor da doação.

– Existem voluntários? Como são escolhidos?

Hoje temos 129 funcionários contratados no regime de CLT, que são profissionais específicos das áreas que oferecemos. Trabalhamos com voluntários de forma pontual, em alguns eventos ou oficinas que agregam valor ao nosso planejamento. Temos também empresas voluntárias, como nossos escritórios de advocacia, nossa agência de design, entre outros. Não existe uma seleção formal de voluntários, o candidato tem de se identificar com os valores da Fundação e atuar nas áreas que oferecemos.

– Como esse trabalho pode inspirar outras pessoas?

A Fundação Gol de Letra existe há 20 anos e posso dizer com muita tranquilidade que é um trabalho muito gratificante, mas muito desafiador também. Para que realmente consigamos impactar a vida das pessoas que atendemos, é necessário oferecer um trabalho de qualidade, o que gera muitos desdobramentos e desafios.

Não é possível criar uma expectativa de resultados imediatos quando se trabalha com educação. Definitivamente, esse setor exige um espaço de tempo mais longo. Porém, após 20 anos, temos muitos resultados positivos que nos servem de estímulo para seguir adiante.

Saber que contribuímos para melhorar a qualidade de vida das pessoas é nosso maior gol. E, ao longo de nossa história, sei que já servimos de modelo e inspiração para o surgimento de muitos outros projetos sociais, o que me dá um grande prazer.

– Quais são os próximos objetivos da instituição?

Nós queremos continuar transformando olhares da sociedade, revelando o verdadeiro potencial que uma comunidade possui e, ao mesmo tempo, transformar os olhares e a realidade social das crianças e dos jovens atendidos pela Fundação.

– O que ainda falta ser feito?

Apesar de já termos progredido muito, ainda estamos longe de uma educação ideal no Brasil.  Acredito que a Gol de Letra contribua, e muito, para a formação de nossas crianças, assim como para o desenvolvimento de novas tecnologias sociais.  Mas, para atingir a população de maneira capilar e abrangente, o poder público é fundamental. Entretanto, ainda não vejo um real interesse de nossos governantes em investir com seriedade na Educação e, definitivamente, um país só cresce com o ensino de qualidade para todos.